PERÍODO
4
O CONSTRUTOR DE ESCOLAS
O ARQUITETO ARTIGAS
Em 1960, a população da cidade
de São Paulo era de 3.781.446 habitantes. O rumo de
desenvolvimento da sociedade brasileira na direção
de uma sociedade urbana e industrial já estava tomado.
Brasília fora inaugurada em abril de 1960 e politicamente
o Brasil respirava ares de uma nova sociedade.
Em São Paulo, a pressão da demanda habitacional
procurava soluções capazes de enfrentar a questão
da escala. Qualquer solução adotada deveria
contemplar a capacidade de reprodução. A indústria
poderia contribuir para resolver o número de pessoas
sem habitação e o número de crianças
sem escola.
Dentro desse contexto, um grupo de arquitetos estava atento
a tais problemas. Era preciso apresentar novas soluções
e novas perspectivas para a cidade.
Pensar sobre escolas e sobre a cidade de São Paulo
nos dirige diretamente ao nome do arquiteto João Batista
Vilanova Artigas. Nascido em 1915 no Paraná e falecido
em 1984 em São Paulo, o arquiteto Artigas influenciou
definitivamente a arquitetura paulistana, nacional e internacional.
Idealizador da nova Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade de São Paulo (projetada em 1961 e inaugurada
em 1969), o arquiteto estava atento às questões
contemporâneas e convicto de que a concepção
da nova escola se orientaria pelo enfrentamento desse novo
momento da sociedade brasileira. Foi apontado pelo arquiteto
Fábio Penteado como “o construtor de escolas”
no editorial da revista Acrópole de 1970, numa edição
inteiramente dedicada aos seus projetos de escolas. A própria
Faculdade de Arquitetura estava mudando de escala: de 50 alunos
por ano a escola passaria a formar 150.
No entendimento de Artigas, o panorama vivido pelo Brasil
no final da década de 1950 e início da de 1960
exigia novas escolas. Estas seriam pensadas com a possibilidade
de reprodução, em uma concepção
pedagógica livre, indicando uma perspectiva progressista
para o Brasil e principalmente preparando a cidade de São
Paulo para os tempos que viriam.
Em 1962, Artigas projetou o Ginásio de Utinga (em Santo
André, no Grande ABC), o primeiro projeto de construção
pré-fabricada para o poder público. A partir
desse projeto, houve uma mudança na maneira como os
arquitetos pensariam uma escola. Essa mudança, nascida
a partir da realidade de São Paulo, alterou os projetos
de escolas no país e fora dele. Além da questão
da pré-fabricação, que solucionava o
problema do grande número de vagas a ser atendido,
nos projetos do arquiteto os espaços projetados nos
prédios contribuíam no processo pedagógico
que ali tomaria lugar.
Após os projetos de Artigas, os prédios das
escolas começam a ser vistos como agentes do processo
de aprendizado, ao mesmo tempo que a escala que ia sendo tomada
pela cidade de São Paulo preocupava o conjunto da sociedade.
A escala não anda separada da qualidade. Ela é
a qualidade pretendida e deve conter qualidade de conteúdo
e métodos. O número de crianças a serem
educadas e o número de famílias que precisavam
de uma casa digna pediam soluções urgentes aos
arquitetos e aos administradores.
Cada prédio construído para abrigar uma escola
contém propostas educacionais atrás de sua concepção,
sejam as escolas do Brasil Colônia, do Império,
da República ou da década de 1940. A partir
de Artigas as propostas se confundem com o próprio
projeto do prédio. Nos Ginásios de Itanhaém
e de Utinga, de Guarulhos assim como na FAU, a proposta de
ensino não era vista separadamente do projeto do prédio
da escola.
Pode um prédio ensinar? Sim, pode. O convívio
com os colegas e professores em um espaço democrático
e generoso leva à prática democrática.
Um edifício pode ser democrático. A prática
de um convívio criativo, conflituoso, é a prática
para a vida em sociedade, para a vida na cidade.
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