PERÍODO
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O CONSTRUTOR DE ESCOLAS
AS ESCOLAS DE ARTIGAS
Tudo começa na maneira como a escola se relaciona com
a cidade. Nesse aspecto, o prédio da Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da USP é o exemplo original. A escola não
tem portas, a cobertura é única, o conjunto
denominado “escola” não é mais uma
série de “puxadinhos”. Todas as partes
da escola estão sob um mesmo teto, indicando que o
processo de aprendizado é um processo aberto e criativo,
e que, dentro do universo coberto da escola, todo momento
é um momento do processo de aprendizado. O espaço
do prédio nos ajuda a lembrar que ali estão
todos dispostos a aprender, a ensinar e a aprender a ensinar,
gerando um processo rico para enfrentar todos os conflitos
que surgem quando escolhemos o caminho da liberdade e da humanização.
É importante frisar que, a partir das escolas de Artigas,
o que se entendia por prédio escolar mudou. O que se
espera de um arquiteto pensando projetos de escolas também
começou a ser diferente. Seu texto “Sobre Escolas”
(revista
Acrópole, 1970) esclarece as preocupações
do arquiteto:
“Atendendo à demanda da população,
as escolas surgem em lugares distantes, sem infra-estrutura
urbana, tornando-se referência de um poder público
por vezes distante e de ações contraditórias
no tempo. A nova tipologia para os edifícios escolares
passa a dialogar com a cidade, procurando gerar um equipamento
público em que a população pudesse
coletivamente gerar conhecimento sobre si e o mundo”.
Nessa nova maneira de pensar o prédio da escola,
o processo de aprendizado, de produção de
conhecimento, não se dá exclusivamente na
sala de aula. Nas conversas com os colegas e os mestres,
os espaços da escola são quase como os espaços
da cidade, suas ruas, calçadas, praças. O
antigo corredor com salas de aula articulado a uma administração
em uma outra construção, e o “galpão”
também isolado do corpo principal são esquecidos.
As escolas de Artigas propõem a cobertura única,
com funções articuladas e integradas a um
grande pátio central (uma praça), onde as
atividades coletivas e os eventos são desenvolvidos.
Essa cobertura, muitas vezes aberta, com iluminação
vinda do céu, acentua a idéia da criação
de um “mundo” dedicado ao estudo e ao conhecimento.
As estruturas dos edifícios se implantam de maneira
exemplar na paisagem, mostrando a presença do esforço
público na educação das futuras gerações.
Ao pensar uma escola, seja o Ginásio de Utinga ou os
anteriores, o Ginásio de Guarulhos ou o de Itanhaém,
o arquiteto Artigas apresentava soluções que
podem ser aplicadas em outros endereços. Não
como fórmulas prontas, mas como uma atitude de respeito
a toda especificidade encontrada em cada localidade.
Na cidade de São Paulo, Artigas fez diversas escolas
públicas – em Santo Amaro e Itaquera, por exemplo
–, além de centros de formação
do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai)
e da própria Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade de São Paulo. A partir dessas escolas,
muitas foram e ainda são projetadas e construídas.
Cada um de nós deve com certeza conhecer alguma “escola
do Artigas”, que provavelmente não foi projetada
por ele, mas por alguém que estudou em uma de suas
escolas ou com o próprio, que é mestre de grande
parte dos arquitetos da cidade de São Paulo.
O último projeto concebido por Vilanova Artigas foi
uma escola em Itaquera, construída em 1985. Este projeto
foi desenvolvido pelos arquitetos Vera Lucia Domschke e Júlio
Camargo Artigas.
O bairro de Itaquera, na zona leste da cidade de São
Paulo, é um dos maiores exemplos da tão propalada
expansão da mancha urbana da cidade. Diversos empreendimentos
habitacionais foram implantados, mas o tecido urbano está
até hoje em configuração. Quando da construção
da escola, a ocupação era ainda mais recente.
Um equipamento urbano como a escola representou um passo na
transformação dos conjuntos habitacionais da
cidade. A escola foi inaugurada após a morte do arquiteto
e carrega em seu desenho o pensamento de Artigas.
A escola foi pensada como um único volume no terreno.
Foi implantada de tal forma que os portões ficassem
abertos nos fins de semana e a comunidade pudesse utilizar
as quadras e vestiários. Compõe-se de dois blocos
separados por um desnível de 1,5 metro e interligados
por rampas. Entre eles fica o pátio. A escola é
delimitada por duas paredes de tijolos, com aberturas para
os acessos principais.
A escola contém todos os espaços programáticos
sob uma grande cobertura, solução adotada pelo
arquiteto nas edificações feitas a partir da
década de 1960. Nessa escola, em vez de uma cobertura
de laje de concreto, Artigas usou telhados de madeira e telhas
de barro que, unidos, formam uma grande cobertura contínua,
vazada somente para clarear o pátio e a área
de circulação, criando jardins internos.
Após as experiências de Artigas, a necessidade
de enfrentar a grande demanda de vagas foi foco da preocupação
dos administradores públicos.
A partir daí procuraram-se soluções para
garantir a produção de um grande número
de escolas. Depois do arquiteto, tornou-se comum chamar o
acesso às salas de aula – o antigo corredor –
de “rua” das salas de aula. O uso do salão
central das escolas é o mesmo de uma praça:
ponto de encontro, lugar do debate, da troca de opiniões,
dos grandes eventos da comunidade.
No texto “Arquitetura e Construção”,
originalmente publicado no catálogo da 9ª Bienal
de Artes de São Paulo e reproduzido na revista
Acrópole,
nº 368, de dezembro de 1969, o arquiteto diz: “A
cidade é uma casa. A casa é uma cidade... As
cidades como casas. As casas como cidades”. Não
seria exagero dizer que as escolas de Artigas são cidades.
Ensinam como ensinam as nossas cidades, se estivermos atentos
a olhar e perceber, como qualquer processo de aprendizado.