PERÍODO
5
A DÉCADA DE 1970
O SISTEMA DE COMPONENTES
A construção de uma escola, já vimos,
acontece em uma série de etapas. Começa pelo
entendimento de quem a escola vai atender, do conteúdo
educacional e suas necessidades operacionais (um certo número
de salas de aula, espaço para recreação,
administração e outros). Junto com isso, surgem
outras questões: que educação se desenvolverá
naquela escola? Em que regiões da cidade serão
implantadas? Em que terrenos? A resposta a cada uma dessas
questões determina a “cara” da instituição
e a própria rede de ensino.
Dimensionando quantas crianças precisavam de escolas,
sabendo onde essas crianças moravam, como estavam
distribuídas na cidade e conhecendo o conteúdo
e objetivos da educação fundamental, a rede
de edifícios escolares começou a ser elaborada.
Não é fácil pensar uma rede de escolas,
definir quantas são, onde estão e quantas
crianças atenderão. Também era preciso
saber quanto custariam, pois a verba era limitada. Foi a
partir dessas perguntas que um sistema de construções
escolares começou a ser engendrado.
Tendo já assimilado a importância simbólica
da escola na cidade e o potencial do edifício escolar
na educação das crianças, o poder público,
representado pelo governo do estado, assumia a responsabilidade
de atender o grande número de crianças sem escola.
Além de todas as outras questões levantadas,
entrava em pauta agora o “como” construir um grande
número de edifícios e de que forma administrar
esse processo garantindo qualidade do resultado, economia
do processo de execução e manutenção,
além do cumprimento de prazos. Portanto, além
de ter de pensar como seria “uma” escola, era
preciso pensar como gerenciar as construções.
A questão administrativa entrou na pauta justamente
pela escala e velocidade com que as unidades seriam construídas.
Muitas hipóteses foram aventadas para solucionar a
questão: a padronização de um projeto
que seria repetido independentemente do lugar (chegou a ser
aplicado em alguns casos o projeto-padrão); a pré-fabricação
(que no momento limitaria os possíveis candidatos a
construtores) e a racionalização do processo
por meio da normatização de elementos, espaços
e componentes construtivos.
Em vez de optar pela aplicação de um “projeto-padrão”,
que poderia até parecer mais fácil, os responsáveis
preferiram seguir por um outro caminho – mais difícil,
mas mais eficiente. O processo de projeto assimilou a normatização
de componentes e geometrias do prédio e seus ambientes.
A normatização de componentes e geometrias significa
a determinação exata das características
que compõem cada item do prédio escolar. Ou
seja: definiu-se, por exemplo, que uma sala de aula para determinado
número de crianças deve ter um tamanho específico
(7,20 x 7,20 metros para até 35 crianças). Se
a sala em questão fosse menor ou maior, apresentaria
problemas. Estabeleceu-se, ainda, que uma sala de aula deve
ter uma área específica de iluminação
natural para garantir condições de leitura e
estudo em seu interior. Qual o tamanho ideal para a janela,
de acordo com o tamanho da sala? Do que deveriam ser feitas
as paredes e os tetos? A padronização desses
itens e componentes agilizaria o gerenciamento do processo
e permitiria uma administração de custos e prazos
viável para o atendimento da grande demanda da sociedade.
O sistema foi assim elaborado, e todas as escolas construídas
pela Conesp no estado de São Paulo seguiriam esse sistema.
O processo de construção da escola começou
a se estruturar dentro da lógica dos novos tempos.
Os construtores (agente 1) seriam contratados para construir
a escola que os arquitetos (agente 2) projetaram. O controle,
a administração e o pagamento da construção
seriam feitos pelo governo do estado através da Conesp
e o seu quadro de técnicos (agente 3). As diretoras
e professoras (agente 4) seriam usuárias, assim como
as crianças (agente 5). A avaliação naquele
momento foi de que somente a normatização do
processo poderia resultar em uma organização
e qualidade do resultado.
A normatização permitiu o controle de custos
da obra. Era possível saber se um construtor estava
cobrando muito caro ou demorando muito tempo para erguer determinado
prédio. E como a normatização estava
nos componentes, os projetos ainda poderiam ser específicos
para cada lugar (dentro de determinados limites) e para cada
situação.
A diferença dos terrenos encontrados na cidade para
a construção de escolas é grande. São
Paulo tem um relevo acidentado, com vales e montanhas. Os
terrenos remanescentes nos loteamentos para a execução
de equipamentos são muito diferentes entre si, muitas
vezes acidentados, em aclive ou declive acentuado. Os arquitetos
procuravam soluções adequadas a cada local e
a cada situação, sempre levando em consideração
o sistema de padronização, que definia não
só dimensões, mas também processos e
materiais.
Segundo a idéia de normatização, o caminho
adotado foi o de abrir o leque de construtoras que poderiam
se candidatar à execução das escolas.
Com uma técnica tradicional e com os sistemas conhecidos,
não só as grandes construtoras poderiam se habilitar;
a disputa entre elas determinaria um preço final mais
vantajoso.
Os números foram grandes. Só no ano de 1998
a FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação),
órgão sucessor da Conesp, administrou a construção
de 3.690 novas salas de aula. A medida – salas de aula
– é estranha: não se mede educação
em número de salas. Mas o relatório da FDE apresenta
com essa unidade a dimensão do desafio enfrentado.
Se pensarmos em escolas médias, de dez salas cada uma,
são quase 370 escolas em um ano. A racionalização
era, de fato, a única maneira de suprir a demanda.
Passaram-se mais de 25 anos desde a criação
da Conesp, sucedida pela FDE como órgão responsável
pelas construções escolares no estado de São
Paulo. Muito se aprendeu nesse tempo.
Outras variáveis começaram a entrar na equação.
A sociedade se transformou, a violência e a depredação
começaram a surgir como sintomas de que algo precisaria
ser mudado. Encarando o sistema educacional como um todo –
edifícios escolares e processos pedagógicos
–, conclui-se que nos dirigimos para uma municipalização
do ensino. Municipalizadas, as decisões sobre o sistema
de ensino e a verificação do andamento e qualidade
das escolas estarão muito mais próximas dos
cidadãos.
A experiência da Conesp e da FDE e o benefício
que estas trouxeram a milhões de crianças ainda
influenciam aqueles que pensam na construção,
organização e funcionamento das escolas hoje.
As experiências posteriores devem bastante a essa rede,
cujas lembranças devem acompanhar muitos dos cidadãos
paulistanos.
Devemos ter em mente que a década de 1970 foi o momento
de aceleração da expansão desordenada
da mancha urbana da cidade. A preocupação dos
idealizadores da rede estava no atendimento à grande
demanda. A habitação e a infra-estrutura urbana
não estavam coordenadas com o projeto da rede educacional.
Era quase como se, apenas somando as diversas partes –
educação, habitação, trabalho
–, pudéssemos compor um todo. Hoje vemos que
não é bem assim. A transversalidade das redes
educacionais, habitacionais, econômicas, entre outras,
é fundamental para a saúde desse organismo chamado
cidade.