Mais idéias para os 450 anos
Professores da rede municipal se reúnem em oficinas para criar atividades com o livro “São Paulo – 450 anos” editado pela Bei Comunicação e escrito com apoio do Cedac, que também realizou os encontros em abril e junho deste ano. Trata-se do projeto em homenagem aos 450 anos da cidade, feito em parceria com os Institutos Unibanco, Votorantim e Gtech.
No que depender dos professores que estavam nas oficinas de artes plásticas, história em quadrinhos, rádio e fotografia, organizadas pelo Cedac, as comemorações do aniversário de São Paulo vão seguir com muita criatividade nas salas de aula do município. As atividades, que aconteceram em 7 CEUs e uma EMEF, apresentaram sugestões para o uso, em classe, do estojo “São Paulo – 450 anos” de livros e pranchas ilustradas sobre a história da cidade e de suas escolas.
Idéias não faltaram nas oficinas no CEU Aricanduva, que tinham em comum a proposta de trabalhar com o olhar de cada professor sobre a cidade em que vivem. A turma de história em quadrinhos, após ver fotografias dos “tipos” que caracterizam a diversidade da metrópole, criou seus próprios personagens.

Era um trabalho silencioso, em que cada um trazia um pouco de suas experiências e opiniões para os quadrinhos. Enquanto um senhor colocava seu personagem para aconselhar um bandido a deixar “essa vida”, duas professoras criaram moças que queriam ser ricas e famosas.
A mais falante da turma inventou uma drag queen romântica, que na história enfrentava o preconceito de sua família.

Depois disso o grupo trabalhou com transparências sobre as pranchas do livro, criando, como num palimpsesto – tema central da oficina-, novas paisagens para a cidade.
O grupo da oficina de artes plásticas começou de lápis preto na mão, procurando janelas para desenhar a vista. Como os professores enxergavam a cidade?

Depois de criar uma pintura coletiva unindo os primeiros trabalhos, a proposta era imaginar como seria, para cada um, a sua cidade: aqui concordavam em muitas coisas, como saúde e educação de qualidade para todos.
Uma professora observou que, pra começar não diria “minha cidade” mas sim “nossa”. Foi mais um momento de conversa na oficina que sempre parava para comentar os trabalhos ou falar da situação da cidade: os problemas da escola pública, os baixos salários, a falta de hospitais na periferia. O grupo afinal seguiu pintando suas cidades ideais. Agora, com muita cor, não pensavam mais nos defeitos, inventavam soluções.

Não era bem um estúdio, mas a sala cheia de fios, microfones, aparelhos de som, com um computador mostrando ondas sonoras e CDs espalhados pra todo lado tinha um clima bastante inspirador. Ali o Pedro Mourão dava a divertida oficina de rádio para uma turma era pequena e interessada. Tinha um que sabia tudo de rádio: nome dos locutores, horário dos programas e até que “A voz do Brasil” mudou de música - agora os tenebrosos acordes de “O Guarani”, de Carlos Gomes, estão em ritmo de Olodum.
A maior parte dos professores procurou essa oficina porque recentemente houve um projeto de instalar uma estação de rádio nas escolas públicas. O grupo queria saber como trabalhar, em classe, o conteúdo de uma rádio. A tarefa foi um prato cheio para o Pedro que, cheio de programas gravados, mostrou jingles, slogans, noticiários, tipos de propaganda, apontou os climas e a sonoplastia de fundo de cada entrada no ar.
A partir daí botaram a mão na massa. Sentados o dia inteiro, os professores bolaram textos para a rádio fictícia, que devia representar um pouco a história de São Paulo. Criaram a “Rádio Metrópolis: a rádio que viaja no tempo, gravando tudo o que uma estação tem direito: nome, vinhetas...
Como tudo que é bom dura pouco, o tempo correu demais nesta viagem ao passado. O acabou não conseguindo gravar todos os programas, como a entrevista com Monteiro Lobato sobre suas críticas à Anita Malfatti. Mas o trabalho valeu a pena. Num clima de entusiasmo e cansaço, a oficina terminou, deixando uma saudade igual à daquela hora fatídica em que acaba a música e começa “A voz do Brasil”.

Dizem que diante das primeiras fotografias da história as pessoas saíram correndo, com medo da mágica. É bem verdade que até hoje esse trabalho feito pela luz parece um mistério e, quem sabe, por isso é tão atraente. Talvez por ser uma profissão charmosa ou porque está na moda, ou porque não há quem não goste de tirar um retratinho, a oficina de fotografia com “pin hole” não surpreendeu por ser a mais badalada.

O frio não desanimou a turma a sentar no chão para olhar os detalhes das latas.

A empolgação era maior quando os grupos entravam na sala escura para colocar o papel fotográfico dentro da câmera e na hora da revelação. Maria do Carmo se sentia o “MacGuiver” (lembram daquele “desarmado e perigoso”, do seriado?) e sua colega Luzia “não era criança, mas estava toda assanhada”.
O papo “de professor pra professor” era constante nessa turma. Passeando pelos grupos, se ouvia comentários sobre escolas, colegas, sobre como dariam aquela oficina para os alunos. Uma professora de geografia trouxe uma revista com ilustrações das etapas da pin-hole. Outra, de artes plásticas, sugeriu que cada aluno decorasse sua câmera. Teve um rapaz, muito sensato, que sacou: “Esse questionário é repetitivo. Dá pra entender por que os alunos também não fazem”.
No laboratório, diante da torneira aberta o tempo todo para a lavagem das fotos na revelação, outro ponto foi colocado por uma professora de ciências: “como posso ensinar isso à minha turma, se sempre falo do desperdício de água?”.

Mais engraçado foi ver uma professora chamar a atenção da outra, que, para encontrar um ótimo ângulo, ia atravessando o jardim na maior alegria. “Na grama não, né, professora?”

Com aquele tempo que fazia lembrar o frio de antigamente, quando São Paulo era a verdadeira terra da garoa e Mário de Andrade a chamava “minha Londres das neblinas finas!”, o grupo de professores e “oficineiros” parecia sair do trabalho com outro um verso do poeta mais paulistano de nossa gente: “Este friozinho arrebitado dá uma vontade de sorrir!”. Daqui por diante, a história continua nas classes das escolas municipais. Pela cara dos professores, com o livro na mão e mais idéias na cabeça – parafraseando o cineasta Glauber Rocha-, a atividade ainda vai dar muito pano pra manga. É o que todos esperamos.
(texto: Clara Assumpção - Cedac)