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DE VILA A CIDADE DO TEMPO COLONIAL

Casa do Bandeirante (primeira metade do século XVIII)

A Casa do Bandeirante, como hoje é conhecida, é uma residência rural típica de São Paulo do tempo dos bandeirantes, localizada muito distante do núcleo original da cidade. Naquela época, a cidade era pobre, e sua população, gente de poucos recursos econômicos se comparada aos colonos que viviam no litoral, organizava expedições pelo sertão em busca de mão-de-obra indígena e de ouro: o "remédio para a pobreza". 41 Tais expedições foram chamadas de bandeiras e os seus integrantes de bandeirantes. 42

Comandadas pelo cabo da tropa ou capitão do arraial, que tinha poder total sobre seus subordinados, as bandeiras reuniam um grande número de aventureiros armados e de índios aliados que guerreavam com arcos e flechas e exerciam a função de carregadores. O tamanho das bandeiras variava conforme as posses e o prestígio no recrutamento. A de Jerônimo Pedroso de Barros, por exemplo, era composta por 300 paulistas e 600 tupis. 43 As tropas marchavam a pé e descalças. Os bandeirantes usavam um gibão, isto é, uma espécie de colete de couro para se defender das flechas inimigas.

Após a descoberta de ouro em Cuiabá, a Vila de São Paulo de Piratininga foi elevada à categoria de cidade, em 1711. Criou-se um governo próprio, surgiram os primeiros sobrados de taipa cobertos por telhas e aumentou a população de portugueses.




No entanto, a população não se fixou em São Paulo, deslocando-se para as zonas auríferas. É grande a inquietação do governador Rodrigo César de Meneses:
"Por me constar que nesta cidade estão algumas pessoas que chegavam a ela depois de eu ter tomado posse deste governo sem darem parte; e que todos os dias estão entrando nela várias pessoas que vêm dos sertões desta capitania sem me participar essa notícia, sendo contra o estilo observado e praticado nas cidades e praças do Brasil…". 44
Dessa época restaram poucas construções da arquitetura paulista. A Casa do Bandeirante é uma delas, que data da primeira metade do século XVIII. Sua área é de 350 metros quadrados. Foi feita de taipa de pilão: técnica construtiva milenar que emprega nas paredes e muros a terra comprimida dentro de formas de madeira. Porém, essa técnica mostrou-se pouco resistente à umidade, o que a faz necessitar de manutenção constante. Queixa-se o governador Mourão em 1767, com certo exagero: "suposto seja esse o uso do país, é tão pouco seguro que basta o descuido de uma telha quebrada para que no espaço de uma noite venha tudo abaixo…". 45

Segundo o arquiteto Carlos Lemos, a taipa de pilão é própria dos lugares pobres, "pobres", explica ele, "não só economicamente, mas também carentes de materiais de construção como a cal, a pedra, o tijolo e carentes de técnicas apropriadas à madeira vista como elemento estrutural". 46 A Vila de São Paulo, portanto, carecia não só de recursos econômicos como também de materiais construtivos.

Como aponta Carlos Lemos, a arquitetura da casa bandeirista permanece uma incógnita. Certa mesma é a destinação dos cômodos fronteiros, que abrigavam um "quarto de hóspedes" e uma capela. Quanto aos demais cômodos, não se sabe ao certo a que tipo de uso eram destinados.

O mobiliário de casas como esta era geralmente escasso e pobre: redes de dormir, bancos, poucas cadeiras, e catres, mesas e baús de madeira. Além disso, a iluminação era precária, feita apenas com lampiões de latão de óleo de mamona e cera. 47

A Casa do Bandeirante ficava originalmente em terras conhecidas originalmente como Uvatantan, doadas aos jesuítas por Afonso Sardinha; com o tempo, o nome evoluiu para o atual Butantã. Depois da expulsão dos padres da Companhia de Jesus, em 1759, passou por diversos proprietários.

Em 1938, a Cia. City de Melhoramentos, responsável pela urbanização das margens do Rio Pinheiros, doou-a à Prefeitura. Com as obras do rio, a casa passou a ter o rio margeado pela frente.

Ao lado de outros exemplares rurais, como a Casa do Sertanista, Casa do Tatuapé, Casa do Sítio Ressaca, Casa do Grito e Capela do Morumbi, a Casa do Bandeirante resistiu ao tempo. Sua presença evoca o arraial sertanista em que os homens, conforme observou o padre jesuíta espanhol Justo Mansilla, "pouco lhes custava abandonar suas casas, pois eram feitas de taipa ou de terra, e onde quer que eles estivessem podiam fazer outras semelhantes". 48

No final do século XVIII, a cidade de São Paulo estava reduzida a quatrocentas moradias. 49 Mesmo em estado bastante decadente, o governador Bernardo José de Lorena observa indícios de crescimento econômico. Diz o seu relatório de 1797: "A agricultura acha-se em um progresso muito grande, de sorte que se pode dizer que acabou a preguiça que geralmente era acusada a capitania de São Paulo". 50

Mas é somente a partir do século XIX, com o ciclo do café, que a cidade de São Paulo deixaria de ser o arraial bandeirante e sairia definitivamente do estado de adormecimento em que se encontrava até então.

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