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DE VILA A CIDADE DO TEMPO COLONIAL

Pátio do Colégio (1554)

Quem passa pelo Pátio do Colégio no ritmo acelerado da metrópole não imagina quanta história se esconde na única parede de taipa remanescente do conjunto jesuítico!

O Colégio dos Jesuítas foi um dos primeiros edifícios de São Paulo de Piratininga, construído no alto de uma colina, de onde se avistava a várzea do Rio Tamanduateí. O local escolhido ficava em território originalmente ocupado por grupos indígenas que falavam tupi, especialmente os guaianás, carijós e tupinambás.

A construção iniciou-se após a celebração da primeira missa pelo sacerdote Manuel Paiva, em 25 de janeiro de 1554. O jovem José de Anchieta, então presente, deixou registrado em seu diário: "Nós, os irmãos mandados para esta aldeia no ano do Senhor de 1554, chegamos a 25 de janeiro e celebramos a primeira missa em uma casa pobrezinha e muito pequena no dia da conversão de São Paulo, a quem a dedicamos".2

No ano seguinte, a construção feita pelos índios, sob orientação dos jesuítas, finalmente ficou pronta. Tratava-se de "uma pobre casinha feita de barro e paus, e coberta de palhas, tendo quatorze passos de comprimento e apenas dez de largura, onde estão ao mesmo tempo a escola, a enfermaria, o dormitório, o refeitório, a cozinha e a dispensa", informa o padre José de Anchieta. 3 Este foi o local que serviu como o centro da catequização dos índios da Capitania de São Vicente.

Em torno do núcleo dos jesuítas ergueram-se palhoças e casas baixas. Para proteção dos ataques indígenas, o povoado, desde a sua fundação, foi cercado por muros de taipa de pilão e estacada. 4

Em 1560, São Paulo de Piratininga ganhou foros de vila e pelourinho; possuía uma população estimada de 120 habitantes, sem contar os indígenas escravizados. 5 A baixa densidade populacional explica-se pelo fato de muitos índios terem deixado a vila para se estabelecer em aldeias próximas: Conceição de Nossa Senhora dos Pinheiros e São Miguel. 6 Em ambas, estima o padre Anchieta, moravam cerca de mil pessoas no ano de 1585. 7

Quanto à vila recém-fundada, nem a excelente localização geográfica e tampouco os muros que a cercavam conseguiram evitar os ataques indígenas. Em 10 e 11 de julho de 1562, os guaianás, aliados aos tamoios do Vale do Paraíba e aos tupis do sertão, investiram contra o arraial.

O padre José de Anchieta testemunha:
"Chegando pois o dia, que foi o oitavo da visitação de Nossa Senhora [10 de julho], deram de manhã sobre Piratininga com grande corpo de inimigos pintados e emplumados, e com grandes alaridos, aos quais saíram logo a receber os nossos discípulos, que eram mui poucos, com grande esforço, e os trataram bem mal, sendo cousa maravilhosa que se achavam e encontravam às flechadas irmãos com irmãos, primos com primos, sobrinhos com tios, e o que mais é, dois filhos que eram Cristãos, estavam conosco contra seu pai, que era contra nós: de maneira que parece que a mão de Deus os apartou assim e os forçou, sem que eles o entendessem, a fazerem isto. […]
Ao segundo dia do combate, vendo-se mui feridos e maltratados e perdida a esperança de nos poderem entrar, deram-se a matar as vacas dos Cristãos, e mataram muitas, destruindo grande parte dos mantimentos dos campos, e puseram-se a fugir já sobre a tarde, com tanta pressa que não esperava pai por filho, nem irmão por irmão, em cujo alcance saíram os nossos discípulos e tomaram dois deles, um dos quais quis ter padrinhos os padres chamados por ele, dizendo que o haviam ensinado e catequizado, que seria seu escravo, mas pouco lhe aproveitou, pois sem nos dar conta disso Martim Afonso [índio catequizado] lhe quebrou logo a cabeça com sua espada de pau pintada e emplumada, que para isso tinha já erguida com a bandeira, e assim fez para omnimo [do latim omnis, significa todos] apartar-se dos seus, que tão injustamente vinham para o matar, e a nós outros, se Deus o permitisse". 8




Os índios capturaram prisioneiros e mantiveram a vila sob estado de tensão e medo. Apenas depois de três meses de intensas negociações entre jesuítas e chefes indígenas foi possível estabelecer os termos de uma reconciliação.

As investidas indígenas, entretanto, prosseguiram até o final do século XVI. Em 1594, a vila foi novamente cercada pelos índios, sendo libertada depois de muita guerra. Entre 1595 e 1596, numerosas operações bélicas foram feitas contra os índios inimigos. Tudo indica que, depois disso, os índios hostis foram aniquilados ou embrenharam-se no sertão remoto a fim de escapar do domínio dos moradores de São Paulo de Piratininga.

Durante os primeiros séculos de colonização, o colégio foi praticamente o único centro de instrução de São Paulo: "O colégio dos jesuítas, com aulas de gramática, é o único a ministrar os rudimentos de humanidades. Mas a sua influência se vai enfraquecendo à medida que se agrava a pendência dos republicanos de São Paulo com os padres da Companhia".9

Quando os jesuítas foram expulsos, em 1759, o edifício do colégio passou por inúmeras reformas para servir de Palácio do Governo. Em carta, o governador de São Paulo escreve no ano de 1769:
"Mandei fazer quase de novo a torre deste colégio, todo o alpendre da portaria, todas as prisões e corpo de guarda deste governo e hospital dos soldados e dos negros, retelhar por diferentes vezes e a cada passo (pelo perigo que correm as paredes por serem de terra) grande quantidade de consertos particulares e precisos, uma varanda que era muito necessária para desafogo dos corredores, que são abafadiços…". 10

No último século, no largo fronteiro ao pátio, havia um jardim famoso pela sua beleza, palco de manifestações públicas e de concertos. O inglês Archibald Forrest o descreve no ano de 1912:
"No jardim fronteiro ao Palácio do Governo existem árvores lindas e interessantes, e no meio delas vemos dois majestosos carvalhos. Os carramanchões são lugares convidativos e repousantes, onde as pessoas sentam-se à luz do sol, que cai sobre elas através dos ramos, lendo os jornais, fumando o tempo todo, conversando quase sempre e movimentando-se raramente. Vendedores de flores andam, aqui e ali, oferecendo tentadores ramalhetes dos mais lindos amores-perfeitos, violetas e rosas e imprimindo maior colorido à cena. O canto dos pássaros, o tilintar das companhias de bondes, o rumor das vozes, os gritos estridentes dos vendedores, tudo se mistura na ensolarada manhã de domingo, e seria difícil imaginar uma cidade e um povo mais feliz…". 11

Em 1932, a sede do governo foi transferida para o Palácio dos Campos Elíseos e o edifício, ocupado pela Secretaria da Educação, acabou por ser demolido em 1953.

Quanto à igreja, que desabou em 1896, foi devolvida à Companhia de Jesus para sua reconstrução no IV Centenário da Fundação de São Paulo, em 1954. O edifício do colégio foi finalmente reconstruído em 1979. 12 Até hoje é o marco da fundação da nossa cidade, a memória do tempo em que São Paulo não passava de um arraial, mais indígena do que português, voltado para a catequese.

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