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BAIRROS OPERÁRIOS

"Eu arranjei o meu dinheiro
Trabalhando o ano inteiro
Numa cerâmica fabricando pote
E lá no alto da Mooca eu comprei um lindo lote
10 de frente e 10 de fundos
e construí minha maloca."
Adoniran Barbosa, Abrigo de vagabundo.


Os imigrantes que se tornaram operários das indústrias da cidade de São Paulo estabeleceram-se, no início do século XX, em loteamentos populares que se localizavam distantes do centro, em terrenos acidentados ou várzeas. Foi assim que nasceram os primeiros bairros operários, como Brás, Bexiga, Barra Funda, Belenzinho, Mooca, Lapa, Luz, Bom Retiro,Vila Mariana e Ipiranga.

Na memória do sr. Amadeu, idoso entrevistado por Ecléa Bosi, ficou gravada a pobreza desses bairros, abandonados pelo poder público:
"Por esse lado do Brás, Cambuci, Belenzinho, Mooca, Pari, aqui tudo era uma pobreza, ruas sem calçamento, casas antigas, bairros pobres, bem pobres. A iluminação era a lampião de querosene. Lembro quando em minha casa puseram um bico de luz, foi o primeiro bico que puseram naquela rua, não lembro exatamente o tempo, faz uns cinqüenta anos. Era mocinho. Puseram um bico só porque a luz era muito cara, mais de duzentos réis por mês. Com o tempo punha-se um bico na cozinha, no quarto, no quintal e assim por diante. Mas era usada como uma luz bem econômica porque não dava para pagar no fim do mês". 17




No bairro do Brás, lembram-se os moradores,

"a rua era o centro de tudo. As pessoas promoviam festas, passeavam durante as noites de verão ou colocavam cadeiras na calçada para prolongadas conversas. O comércio também percorria os calçamentos de pedra. Vendedores iam de porta em porta anunciando as mercadorias: pizza em quantidade dentro dos latões, frango, verduras e doces". 18
Os moradores desses bairros não só viviam em casas de pau-a-pique, como também em cortiços, edifícios que abrigavam muitas famílias.
"Um cortiço típico, tal como foi revelado pela pesquisa municipal de 1893, ocupava o interior de um quarteirão, onde o terreno era geralmente baixo e úmido. Era formado por uma série de pequenas moradias em torno de um pátio ao qual vinha ter, da rua, um corredor longo e estreito. A moradia média abrigava de 4 a 6 pessoas, embora suas dimensões raramente excedessem 3 metros por 5 ou 6, com uma altura de 3 a 3,5 metros. Os móveis existentes ocupavam um terço do espaço. O cubículo de dormir não tinha luz nem ventilação; superlotado, à noite era hermeticamente fechado", afirma o historiador Richard Morse. 19


Indagada a respeito da vida em cortiço, uma ex-moradora do Scoppeta, cortiço famoso da Rua Caetano Pinto, no Brás, respondeu: "Morar em cortiço? Era maravilhoso […] Todo mundo se conhecia, havia amizade, uma ajudava a outra. Depois cada uma ponhava umas plantinhas na sua janela, cada uma queria ter uma panela mais limpa e brilhando que a vizinha". 20

As vilas operárias constituíram outra forma de habitação popular da virada do século na cidade de São Paulo. Muitas grandes indústrias possuíam vilas em suas proximidades ocupadas pelos trabalhadores. As mais conhecidas situavam-se nos bairros do Brás e Mooca, construídas pela Fábrica Santana, Álvares Penteado, Francisco Matarazzo e Crespi. "Algumas vezes contavam com equipamentos complementares, como igrejas ou creches. Mas sistematicamente tinham um armazém, no qual os trabalhadores faziam suas compras, anotadas em cadernetas, exatamente como os colonos das fazendas", comenta Nestor Goulart Reis Filho. 21

Um projeto modelo de vila operária foi realizado pelo industrial Jorge Street, em 1916, no Belenzinho. A Vila Maria Zélia, como ficou conhecida, abrigou 2.100 operários da Companhia Nacional de Tecidos de Juta, tendo sido considerada revolucionária para os padrões brasileiros, porque defendia o direito dos trabalhadores a moradia, educação, saúde e lazer.22

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