A FISIONOMIA
EUROPÉIA DA CIDADE (1889-1930)
"Outro dia, caminhando para o viaduto
do Chá,
observava como tudo havia mudado em volta,
ou quase tudo. O Teatro Municipal,
repintado de cores vivas, ostentava sua qualidade
de vestígio destacado do conjunto urbano.
Nesse momento descobri, sob meus pés,
as pedras do calçamento, as mesmas que pisei
na infância. Senti um grande conforto.
Percebi com satisfação a relação familiar
dos colegiais, dos namorados, dos vendedores
ambulantes com as esculturas trágicas
da ópera que habitam o jardim do teatro.
Os dedos de bronze de um jovem reclinado
numa coluna da escada continuam sendo polidos
pelas mãos que o tocam para conseguir ajuda
em seus males de amor. As pedras resistiram e,
em íntima comunhão com elas, os meninos brincando
nos lances da escada, os mendigos nos desvãos,
os namorados junto às muretas, os bêbados no chão."
Ecléa Bosi, Memória e sociedade: lembranças
de velhos.
A expansão da produção cafeeira e a implantação de uma rede
ferroviária no estado de São Paulo provocaram um vertiginoso
aumento demográfico na capital. A substituição da mão-de-obra
escrava pela assalariada atraiu para o Brasil grandes fluxos
de imigrantes, provenientes dos países europeus e asiáticos.
Muitos deles foram trabalhar na lavoura das fazendas de café,
enquanto outros se instalaram nas grandes cidades.
No final do século XIX, São Paulo recebeu cerca de 900 mil
imigrantes, na maioria italianos.
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Em 1910, a população chegou a 375.439 habitantes, sendo que
mais de 100 mil trabalharam como operários nas nascentes fábricas
paulistas, das quais se destacaram as indústrias têxteis e
alimentícias. Depois, vieram os sírio-libaneses e, a partir
de 1908, os japoneses. Em 1917, calcula-se que a população
da cidade tenha atingido 500 mil habitantes, volume dobrado
em 1933.
Não é difícil imaginar o quanto a presença desses imigrantes
mudou a fisionomia de São Paulo! Línguas diferentes, novos
hábitos, formas de sociabilidade inusitadas, organizações
populares, movimentos políticos e culturais influenciados
pelas experiências européias coloriam as ruas da cidade e
denunciavam o seu caráter cosmopolita. O Guia do Estado de
São Paulo, de 1912, descreve essa confluência de culturas:
"Um pequeno mundo onde vibra com intensidade o eco da vida
paulistana. Escuta-se a conversa de uma infinidade de tipos,
nacionalidades e raças".
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Mas foi sobretudo a influência italiana que marcou a vida
dos paulistanos. Lembra-se Ernani Silva Bruno: "Os meus ouvidos
e os meus olhos guardam cenas inesquecíveis. Não sei se a
Itália o seria menos em São Paulo. No bonde, no teatro, na
rua, na igreja, falava-se mais o idioma de Dante que o de
Camões".
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Em depoimento à socióloga Ecléa Bosi, o sr. Abel, antigo morador
da cidade, recorda-se dos pregões italianos que compunham
a paisagem sonora de seu tempo de menino:
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"Batata assada al furn
Batata assada al furn
A tostón o pedaço! Melanzia barata!
Come, bebe e lava a cara."
Ou então, para a alegria da criançada:
"Survetinho, survetón,
Survetinho de limón,
Quem não tem o dez tostão
Não toma sorvete não
Sorvete, iaiá!"
Os imigrantes abriram diversos estabelecimentos comerciais
e de serviços. Além de operários e vendedores ambulantes,
exerciam várias profissões; eram alfaiates, barbeiros, confeiteiros,
engraxates, sapateiros, fotógrafos, donos de cantinas, engenheiros,
empresários, banqueiros e industriais.
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Nesse período, a cidade expandiu-se a partir do seu núcleo
central. O centro se transformara em área comercial e de escritórios.
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"A este, a baixada do Brás, com sua Estação do
Norte e a Hospedaria de Imigrantes, rapidamente se transformava
em bairro de pequeno comércio e reduto do operariado. A
Estação da Luz ao norte era o centro de atividade, sendo
os terrenos aí também ocupados pelas classes mais pobres.
O sul e o sudoeste não contavam com o estímulo de uma linha
férrea e sua estação terminal, e apenas começavam a sentir
a pressão pelo espaço residencial. Mas a noroeste, a zona
de chácaras subdivididas de Santa Efigênia e Campos Elíseos
claramente denunciava então a cultura e os interesses urbanos
da elite em ascensão - tal como a Praça da República, antigo
Largo dos Curros, recentemente embelezada", observa o historiador
Richard Morse.
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A expansão urbana, portanto, levou, de um lado, à formação
de bairros operários nas zonas industriais que acompanhavam
as vias férreas, como Mooca, Brás, Pari, Belém, Lapa, Bom
Retiro, Ipiranga, e, de outro, à formação de bairros de elite,
como Campos Elíseos, Higienópolis e Avenida Paulista.
Nos bairros populares, as ruas estreitas cortavam os estabelecimentos
industriais e as moradias densamente povoadas. "Geralmente
há barro nas ruas, esgoto a céu aberto e bonde na via principal",
comenta Raquel Rolnik.
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A falta de saneamento básico no novo
cenário industrial propiciava a transmissão de doenças.
Em contraste, os bairros ricos gozavam de amplas e elegantes
avenidas pelas quais desfilavam palacetes cercados de muros,
abastecidos pelos serviços públicos: rede de água, esgoto,
iluminação e calçamento, além de uma lei que regulamentava
a construção e a ocupação de "jardins e arvoredos".
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Todos os bairros foram vítimas de intensa especulação imobiliária
que resultou no elevado preço dos terrenos e moradias. O crescimento
urbano caótico e acelerado foi motivo de preocupação das autoridades,
conforme atesta relatório feito ao governo do estado em 1891:
"Conquanto fundada há mais de 330 anos, S. Paulo
é uma cidade nova, cujo aspecto geral assignala-se agora
por uma constante renovação das edificações antigas, as
quaes desapparecem rapidamente e pelas multiplicadas construções
que constituem os bairros novos.
Seguramente duas terças partes da cidade actual é de data
muito recente.
Examinada em globo, S. Paulo é uma cidade moderna com todos
os defeitos e qualidades inherentes ás cidades que se desenvolvem
muito rapidamente. Desigualdade nas edificações e nos arruamentos,
desigualdades de nível muito sensíveis, irregularidade nas
construções realisadas sem plano premeditado, largas superfícies
habitadas sem os indispensáveis melhoramentos reclamados
pela hygiene, grandes espaços desocupados ou muito irregularmente
utilizados, e a par de tudo isso uma população que triplicou
em dez annos, grande movimento, muito commercio, extraordinária
valorisação do solo e das edificações e clima naturalmente
bom".
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Sem dúvida, o aumento demográfico gerou novas construções
na cidade. "No amanhecer do século, 289 casas foram edificadas.
Mas, de 1902 a 1914, a capital passou a contar com 31.219
casas a mais", analisa Maria Cecília Naclério Homem.
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Quanto ao transporte, além de charretes, cavalos e carros
de boi, bondes de tração animal de várias empresas trafegavam
tanto pelos bairros dos operários quanto pelos da elite.
| Em
1897 as estações dos Bonds de tração
animale suas direções na cidade de São
Paulo eram as seguintes: |
1º ) Estação
Largo do Rosário para:
Rua Amador Bueno, Alameda do Triunfo, Alameda Glete,
Avenida Paulista, Beneficiência, Alameda do Triunfo,
Bom Retiro, Jardim da Luz, Cesário Mota, Estação
Guayanazes, Hygienópolis, Ponte Grande, Santana,
Santa Cecília, Rua das Palmeiras, Para o Viaducto,
Rua Vitória, Santa Cecília e Ypiranga.
2º) Estação Largo do Rozario para:
Brás, Consolação, Para o Viaducto,
Imigração, Hipódromo, Liberdade,
Mooca, Norte, Rua Miller, Vila Buarque.
3º) Estação Largo da Sé para:
Cambuci, Ypiranga, Vila Deodoro.
4º) Estação Rua 25 de Março
para:
Cambuci, Jardim, Mooca.
5º) Estação Mercado Velho para:Braz,
Imigração, Mooca, Norte, Oriente.
6º) Estação Mercadinho São
João para:Rua Santo Antonio, Rua Conselheiro
Ramalho.Horários: das 6:00 às 23:00 |
Em 1889, estabeleceu-se uma linha que partia da Sé
e terminava na Colina do Ipiranga, e outras duas que se dirigiam
aos bairros do Bom Retiro e Bela Vista. De 1872 a 1900, as
linhas de bondes atingiram 60 quilômetros.
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Circulavam pelas ruas da cidade 170 carros de passageiros e 75 carros
de carga, que estavam sendo puxados por seis locomotivas e
aproximadamente 1.700 animais nos bondes a burro.
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Passados dez anos, a companhia canadense The São Paulo
Tramway Light and Power Co. Ltda. – a Light –
recebeu concessão por 40 anos para a construção
e utilização de linhas de bondes elétricos,
geração e fornecimento de energia elétrica,
e prestação do serviço de iluminação
pública nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro
e Santos. Para tanto, construiu a primeira usina hidrelétrica,
a Usina de Parnaíba, depois chamada de Edgard de Sousa,
situada a 35 quilômetros da cidade. Em 1907, a Companhia
Light fez a barragem do Rio Guarapiranga, afluente do Rio
Pinheiros, formando uma represa.
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A iluminação elétrica deu um grande impulso à industrialização.
Quando a luz elétrica chegou ao bairro do Brás,
na década de 1930, os moradores da Rua Caetano Pinto
comemoraram: “colocaram mesas na rua, a enfeitaram com
flores, dançaram e comeram até a madrugada”.
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A primeira linha de bondes elétricos foi entre o Largo
de São Bento e o bairro da Barra Funda, inaugurada
em 1900. Depois, outras linhas foram inauguradas: Bom Retiro,
Consolação, Vila Buarque, Higienópolis,
Avenida Paulista, Avenida Angélica, Brás, Augusta
e Penha.
Evolução da frota
de bondes da Light na cidade
de São Paulo |
1900......... 15 carros
1901......... 46 carros
1903......... 64 carros
1904......... 71 carros |
1907........... 81 carros
1908......... 105 carros
1910......... 201 carros
1939......... 567 carros |
A Light, entretanto, sempre definiu as regiões que
deveriam ser beneficiadas e as que deveriam ser desprovidas
de infra-estrutura. Com isso, estabeleceram-se padrões
muito desiguais de urbanização.
“A grande transformação que ocorreu
na cidade do café foi, sem dúvida, a configuração
de uma segregação espacial mais clara: territórios
específicos e separados para cada atividade e cada
grupo social. Isso se deu por meio da constituição
de bairros proletários e dos loteamentos burgueses,
da apropriação e reforma do centro urbano
pelas novas elites dominantes e da ação discriminatória
dos investimentos públicos e regulação
urbanística”, analisa Raquel Rolnik.
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| O crescimento dos distritos |
| Distritos |
1872 |
1886 |
1890 |
1893 |
| Sé |
9.213 |
12.821 |
16.395 |
29.518 |
| Santa Ifigênia |
4.459 |
11.909 |
14.025 |
42.715 |
| Consolação |
3.357 |
8.269 |
13.337 |
21.311 |
| Brás |
2.308 |
5.998 |
16.807 |
32.387 |
| Penha |
1.883 |
2.283 |
2.209 |
1.128 |
| N. S. do Ó |
2.023 |
2.750 |
2.161 |
2.350 |
| São Paulo |
23.243 |
44.030 |
64.934 |
192.409 |