CIDADE MODERNA(1930-1960)
APERITIVO
“A felicidade anda a pé
Na Praça Antônio Prado
São 10 horas azuis
O café vai alto como a manhã de arranha-céus
Cigarros Tietê
Automóveis
A cidade sem mitos”
Oswald de Andrade, Poesias reunidas.
“São Paulo é a cidade que mais cresce
no mundo”, dizia o slogan das comemorações
do IV Centenário, em 1954.
1
A transformação urbana se deu em ritmo acelerado:
a verticalização do centro com novos edifícios,
o crescimento dos bairros e a expansão dos subúrbios.
Ao longo das ferrovias apareceram novas cidades: Cidade Patriarca,
Itaquera, Itaquaquecetuba. Trens, bondes, eletricidade, telefone,
automóveis, rodovias, avenidas, arranha-céus
inseriram, definitivamente, a cidade de São Paulo na
era da modernidade. “Tudo vai se congestionando rapidamente”,
alerta matéria de jornal.
2
Já na década de 1930, o antropólogo
Claude Lévi-Strauss considerou que
Novas estradas construídas na década de 1940,
como a Via Dutra e a Via Anchieta, propiciaram a formação
de núcleos urbanos e industriais, densamente populosos,
como Guarulhos e São Bernardo do Campo.
Na década de 1930, 1 milhão de pessoas moravam
na cidade; em 1950, esse número dobrou. Três
anos depois, São Paulo se tornaria a primeira cidade
do Brasil com 2,7 milhões de pessoas.3
Em 1960, esse número atingiria 3,7 milhões,
segundo a Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano
S.A.).
As construções acompanharam esse surto de
crescimento populacional. “Em 1920 houve 1.875 novas
construções, em 1930: 3.922, em 1940: 12.490
e em 1950: 21.600”, explica Richard Morse.4
Em 1940, construíam-se em média 5,6 edificações
por hora.5
Claude Lévi-Strauss observou: “Os paulistas
se gabavam do ritmo da construção em sua cidade,
à média de uma casa por hora. Tratava-se então
de palacetes. A cidade desenvolve-se com tal rapidez que
é impossível encontrar-lhe um mapa: cada semana
exigiria uma nova edição”.6
Em 1954, a área urbana da cidade tinha crescido
muito: 6 mil ruas e 170 mil automóveis.7
Tornou-se, ainda, o maior parque industrial da América
Latina, com 21 mil fábricas na capital, bastante
diversificadas: indústrias de bens de consumo durável
(automobilística e eletrodomésticos), bens
intermediários (siderurgia, papel, petroquímica,
borracha) e bens de capital (máquinas e equipamentos).
Entre as décadas de 1950 e 1960, as indústrias
paulistas empregavam 585 mil operários.8
O operário espanhol Antonio Galuchino Avellanas
é testemunha do amplo mercado de trabalho da cidade:
“Eu cheguei a São Paulo em 1954, num dia 21,
e no dia 24 eu já estava empregado. Quem tinha profissão
não se preocupava com nada e era bem remunerado.
O Brasil era o país da abundância. Trabalhava-se
bastante, mas dava para viver”.9
Tanto o desenvolvimento econômico quanto o mercado
de trabalho nas construções e fábricas
motivaram a vinda de migrantes de muitas regiões
do Brasil. “Em 1950, São Paulo abrigava mais
de 500 mil mineiros e 400 mil nordestinos (dos quais cerca
de 190 mil baianos, 63 mil pernambucanos, 57 mil alagoanos
e 30 mil cearenses)”.10
Os migrantes chegaram a compor quase a metade da população,
enquanto a imigração estrangeira foi contínua
entre as décadas de 1940 e 1960. Calcula-se em torno
de 300 mil os estrangeiros residentes na cidade.11
Na década de 1940, na gestão do prefeito
Prestes Maia, houve um grande investimento no sistema viário
para a implantação do seu “Plano de
Avenidas”, visando à circulação
dos veículos de quatro rodas. O Guia pitoresco e
turístico de São Paulo, de José B.
Almeida Júnior, de 1948, registra a transformação
urbana para a irradiação de avenidas: “Onde,
ainda no ano de 1900, existiam becos, vielas e casebres,
rasgaram-se grandes avenidas, surgindo, em meio ao espanto
geral, como obra de magia, suntuosos e magnificentes arranha-céus
que buscam o infinito”.12
Segundo o urbanista Candido Malta Campos, “enquanto
a prefeitura se dedicava de corpo e alma às realizações
previstas no Plano de Avenidas, a Light desistia de qualquer
investimento em transporte coletivo”.13
A instalação da indústria automobilística
em São Paulo no ano de 1956 atraiu ainda mais a preocupação
dos governantes com relação aos interesses
dessa indústria e à circulação
dos automóveis pela cidade.
Com isso, os bondes foram progressivamente desativados,
considerados inadequados à cidade moderna, substituídos
por ônibus diesel e automóveis particulares.
O último bonde “Camarão 1543”
que fazia a última linha em operação
na cidade, a Biológico–Santo Amaro (antiga
Praça da Sé–Santo Amaro), fez a sua
última viagem em 27 de março de 1968. O fim
da viagem aconteceu no Largo 13 de Maio, onde cerca de 5
mil pessoas aplaudiram a chegada do bonde. Após discursos,
o bonde fez a sua última viagem de volta para a Vila
Mariana.14
Segundo o pesquisador Waldemar Corrêa Stiel: “As
crianças alegravam o ambiente cantando várias
músicas de carnaval e outra adaptada de canção
de ano novo: ‘Adeus bonde velho…’.
Ao chegar ao alto da Boa Vista, as irmãs de um colégio
ali existente estavam enfileiradas ao lado da linha e acenavam
com lenços brancos, numa saudação de
despedida que provocou muitas lágrimas…”.15
Este foi o fim de 96 anos de serviços dos bondes
na cidade de São Paulo e o início da situação
crítica em que se encontra hoje o transporte coletivo.