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CIDADE MODERNA(1930-1960)


Um espaço urbano atravessa os séculos: o Piques, a Pirâmide e o Largo da Memória



Essa aquarela de Charles Landseer (1799-1879), pintor que esteve no Brasil de 1825 a 1826, retrata com grande precisão o triângulo urbano da cidade de São Paulo. Ao longe, avistamos as torres das igrejas de São Paulo. Casas e sobrados de taipa com grandes quintais concentravam-se em poucas e mal traçadas ruas. O Largo do Piques não está identificado. Segundo o historiador Paulo Cursino de Moura, o local recebeu o nome em decorrência do terreno acidentado e íngreme em sua volta.36 Na parte central da aquarela figuram bananeiras, uma araucária e outras vegetações.


Nessa imagem do fotógrafo Augusto Militão de Azevedo notamos a presença do obelisco, um monumento de granito – a Pirâmide do Piques –, projetado por Daniel Pedro Muller e construído pelo pedreiro Mestre Vicentinho em 1814. Tratava-se de um local muito movimentado, durante todo o século XIX, onde se concentravam os tropeiros que chegavam e saíam da cidade para o sul e o interior do estado. Na última década do século XIX, a região do Piques mantinha, ainda, grande animação comercial, segundo Everardo Vallim Pereira de Sousa:

“Era ali de fato o ponto mais comercial de São Paulo, pela concentração de grandes casas de negócios em grosso, girando com vultuosos capitais. Daquele ponto irradiavam-se todas principais Estradas para o Interior e exterior da Província, com ligação a outras vizinhas […] Pode-se, por isso, fazer idéia do intenso movimento de tropas que, diariamente, ali chegavam e dali partiam em tão diversas direções, transportando mercadorias de toda espécie”.37

Por essa época, comenta Jorge Americano, quando se saía do Piques à esquerda, situava-se o bairro do Bexiga, e à direita, a Rua da Consolação (antiga Estrada do Piques), que se dirigia a Sorocaba.38

Além do obelisco cercado por um muro, a imagem mostra uma construção – o Chafariz do Piques, extinto em 1872 – que servia comoreservatório de água para os tropeiros e suas tropas.39

Nas ruas da cidade transitavam, nessa época, cavaleiros, tropas de burros, carros de boi e pedestres. Em relação à imagem anterior, houve, de um lado, diminuição da área verde urbana e, de outro, aumento das construções de taipa e do número de ruas da cidade (a maioria sem calçamento). Ao fundo, divisamos as torres das igrejas.


Em 1919, por ocasião das comemorações do Centenário da Independência, Washington Luís contratou o arquiteto Victor Dubugras para projetar uma reforma do Largo do Piques, que passou a se chamar Largo da Memória. A pirâmide permaneceu intacta, um outro chafariz foi construído no fundo da pirâmide e as árvores foram mantidas. As escadas ondulantes em forma de cascata são de grande beleza. Ao fundo, um painel de azulejo, desenhado por Wasth Rodrigues, reproduz o antigo chafariz. Um monumento em homenagem ao tropeiro foi projetado, mas não executado.40

“Com essas obras”, analisa Benedito Lima Toledo, “o Largo da Memória integrou-se ao Parque Anhangabaú. A Ladeira da Memória passou a ser rua exclusiva para pedestres, uma das primeiras do gênero da Cidade. Seu sentido escultural, que valorizou grandemente o Obelisco, sua hábil articulação com o espaço urbano, numa região de topografia difícil, e a alta qualidade de sua execução colocam o Largo da Memória como a Praça mais bem projetada da Cidade”.41
Além do Largo da Memória reformado, a imagem mostra ruas bem calçadas com paralelepípedos, trilhos, bondes e automóveis em circulação. Os palacetes da Ladeira da Memória resistiam. Ao fundo, prédios de concreto armado, um em construção, revelam o início da verticalização da cidade. O anúncio do perfume Pierrot, no alto do edifício, demonstra a influência dos produtos franceses nos costumes da elite da cidade nas primeiras décadas do século XX. Já não é possível avistar nenhuma torre de igreja.


Nessa fotografia anônima, que data de 1949 aproximadamente, notamos em primeiro plano a solitária árvore do Largo da Memória em frente da total verticalização da região central. As ruas foram substituídas por largas avenidas, feitas em benefício da circulação de automóveis e ônibus. Curiosamente, não aparece nenhum transporte coletivo nesta imagem. No alto do edifício, o anúncio dos pneus Firestone sugere a importância dos veículos de quatro rodas na política de urbanização de São Paulo.

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