Um espaço urbano atravessa os séculos: o Piques, a
Pirâmide e o Largo da Memória
Imagem 1:
Cidade de S. Paulo, c.1826 - Charles Landseer - Aquarela
sobre papel
Crédito: Charles Landseer
Essa aquarela de Charles Landseer (1799-1879), pintor que
esteve no Brasil de 1825 a 1826, retrata com grande precisão
o triângulo urbano da cidade de São Paulo.
Ao longe, avistamos as torres das igrejas de São
Paulo. Casas e sobrados de taipa com grandes quintais concentravam-se
em poucas e mal traçadas ruas. O Largo do Piques
não está identificado. Segundo o historiador
Paulo Cursino de Moura, o local recebeu o nome em decorrência
do terreno acidentado e íngreme em sua volta.36
Na parte central da aquarela figuram bananeiras, uma araucária
e outras vegetações.
Imagem 2: Largo
do Piques, c.1862 - Augusto Militão de Azevedo
–Fotografia
Crédito: Militão Augusto de Azevedo
Nessa imagem do fotógrafo Augusto Militão
de Azevedo notamos a presença do obelisco, um monumento
de granito – a Pirâmide do Piques –, projetado
por Daniel Pedro Muller e construído pelo pedreiro
Mestre Vicentinho em 1814. Tratava-se de um local muito
movimentado, durante todo o século XIX, onde se concentravam
os tropeiros que chegavam e saíam da cidade para
o sul e o interior do estado. Na última década
do século XIX, a região do Piques mantinha,
ainda, grande animação comercial, segundo
Everardo Vallim Pereira de Sousa:
“Era ali de fato o ponto mais comercial
de São Paulo, pela concentração de
grandes casas de negócios em grosso, girando com
vultuosos capitais. Daquele ponto irradiavam-se todas principais
Estradas para o Interior e exterior da Província,
com ligação a outras vizinhas […] Pode-se,
por isso, fazer idéia do intenso movimento de tropas
que, diariamente, ali chegavam e dali partiam em tão
diversas direções, transportando mercadorias
de toda espécie”.37
Por essa época, comenta Jorge Americano, quando
se saía do Piques à esquerda, situava-se o
bairro do Bexiga, e à direita, a Rua da Consolação
(antiga Estrada do Piques), que se dirigia a Sorocaba.38
Além do obelisco cercado por um muro, a imagem mostra
uma construção – o Chafariz do Piques,
extinto em 1872 – que servia comoreservatório
de água para os tropeiros e suas tropas.39
Nas ruas da cidade transitavam, nessa época, cavaleiros,
tropas de burros, carros de boi e pedestres. Em relação
à imagem anterior, houve, de um lado, diminuição
da área verde urbana e, de outro, aumento das construções
de taipa e do número de ruas da cidade (a maioria
sem calçamento). Ao fundo, divisamos as torres das
igrejas.
Imagem 3: Largo da Memória,
c. 1929 – Anônimo - Fotografia
Crédito: Anônimo
Em 1919, por ocasião das comemorações
do Centenário da Independência, Washington
Luís contratou o arquiteto Victor Dubugras para projetar
uma reforma do Largo do Piques, que passou a se chamar Largo
da Memória. A pirâmide permaneceu intacta,
um outro chafariz foi construído no fundo da pirâmide
e as árvores foram mantidas. As escadas ondulantes
em forma de cascata são de grande beleza. Ao fundo,
um painel de azulejo, desenhado por Wasth Rodrigues, reproduz
o antigo chafariz. Um monumento em homenagem ao tropeiro
foi projetado, mas não executado.40
“Com essas obras”, analisa Benedito
Lima Toledo, “o Largo da Memória integrou-se
ao Parque Anhangabaú. A Ladeira da Memória
passou a ser rua exclusiva para pedestres, uma das primeiras
do gênero da Cidade. Seu sentido escultural, que valorizou
grandemente o Obelisco, sua hábil articulação
com o espaço urbano, numa região de topografia
difícil, e a alta qualidade de sua execução
colocam o Largo da Memória como a Praça mais
bem projetada da Cidade”.41
Além do Largo da Memória reformado, a imagem
mostra ruas bem calçadas com paralelepípedos,
trilhos, bondes e automóveis em circulação.
Os palacetes da Ladeira da Memória resistiam. Ao fundo,
prédios de concreto armado, um em construção,
revelam o início da verticalização da
cidade. O anúncio do perfume Pierrot, no alto do edifício,
demonstra a influência dos produtos franceses nos costumes
da elite da cidade nas primeiras décadas do século
XX. Já não é possível avistar
nenhuma torre de igreja.
Imagem 4:
Panorama do Largo da Memória, 1949 –
Anônimo - Fotografia
Crédito: Anônimo
Nessa fotografia anônima, que data de 1949 aproximadamente,
notamos em primeiro plano a solitária árvore
do Largo da Memória em frente da total verticalização
da região central. As ruas foram substituídas
por largas avenidas, feitas em benefício da circulação
de automóveis e ônibus. Curiosamente, não
aparece nenhum transporte coletivo nesta imagem. No alto
do edifício, o anúncio dos pneus Firestone
sugere a importância dos veículos de quatro
rodas na política de urbanização de
São Paulo.