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O CENTRO TRADICIONAL E OUTRAS CENTRALIDADES

"Considero, antes de tudo, a lógica
do desenvolvimento urbano rumo a outras
regiões da cidade - fruto de decisões tanto
do poder público, como da iniciativa privada -
o principal fator de deterioração, o que gera
queda na qualidade dos serviços públicos
e das edificações das áreas abandonadas
por tais investimentos."
Heitor Frúgoli Jr. Centralidade em São Paulo:
trajetórias, conflitos e negociações na metrópole
.


Desde a década de 1970, o espaço da cidade sofreu violentas intervenções: o centro tradicional desvalorizou-se aos olhos das classes média e alta, que passaram a optar pelos empreendimentos imobiliários nos subúrbios, seja para servir de local de trabalho, seja para moradia. A partir daí, desenha-se uma nova paisagem urbana: o centro perde o poder econômico, deteriorando-se, enquanto outros centros emergem em São Paulo, pautados pelo mercado imobiliário e pelos investimentos públicos e particulares.





O centro tradicional

Até a década de 1960 o centro de São Paulo era o espaço de referência em torno do qual a cidade se organizava. Desempenhou também o papel de núcleo de cultura e berço da história da cidade, e oferecia oportunidades de trabalho e de moradia.

Contudo, durante o regime militar, os governos de São Paulo instauraram a política de "urbanização" do centro, entendida simplesmente como execução de grandes obras de engenharia para incrementar a rede viária.




O símbolo dessa mentalidade autoritária é o Elevado Costa e Silva, mais conhecido como "Minhocão", via expressa construída sem o apoio da população no governo de Paulo Maluf. Inaugurado em 1970, estende-se por 3,4 quilômetros sobre a Avenida São João. Trata-se do exemplo típico de uma obra que criou ambientes degradados em seus arredores e danificou irremediavelmente a vida dos moradores de suas proximidades. Além de ser horrível do ponto de vista urbano, o Minhocão desvalorizou os imóveis, trouxe o barulho e a poluição aos moradores. Nas palavras de Heitor Frúgoli, "cortou a cidade na direção da Zona Leste, atingindo a Praça Marechal Deodoro e inúmeros prédios, que passaram a contar com milhares de automóveis transitando próximo às suas janelas, tornando parte da Avenida S. João num espaço absolutamente degradado". 24 Como observou Feldman, a atuação do poder público ficou marcada pela inconseqüência. 25

Apesar do estrago que provocou, o Minhocão é um exemplo de espaço de caráter público que foi novamente apropriado pelos moradores dos bairros próximos. Aos domingos e feriados, quando está interditado ao trânsito de carros, o elevado torna-se lugar de lazer para todas as faixas etárias da população. 26 Idosos, mulheres, homens, jovens e crianças brincam, jogam ou simplesmente passeiam entre barracas que vendem os mais variados produtos.

Nas décadas de 1980 e 1990, as empresas e as elites deixaram o centro, enquanto as classes populares ocuparam as suas ruas no exercício de atividades informais - vendedores, camelôs, engraxates, plaqueiros, pamonheiros, catadores de papel, entre outros. Em 1998, cerca de 2,6 milhões de pessoas, com idade acima de 10 anos, dedicavam-se a essas atividades na cidade. 27




A década de 1990 assistiu a uma série de iniciativas para revitalizar o centro, por onde hoje circulam diariamente mais de 2 milhões de pessoas. A Associação Viva o Centro, por exemplo, reúne entidades e empresas que partilham a meta do desenvolvimento da área central de São Paulo, "em seus aspectos urbanísticos, culturais, funcionais, sociais e econômicos, de modo a transformá-la num Centro Metropolitano forte e eficiente". 28

Em 2001 a Prefeitura de São Paulo também iniciou um programa de reconstrução do centro, com o objetivo de
"resgatar o caráter público do espaço público; ampliar o uso residencial e garantir a diversidade de funções; consolidar a identidade de centro metropolitano; promover ações urbanísticas com inclusão social; criar mecanismos de gestão democrática voltados para o interesse coletivo; atuar sistematicamente para a redução da violência". 29

Outras centralidades

A desvalorização do centro a partir da década de 1960 resultou na evasão de empresas e bancos, que criaram outras centralidades na cidade: a Avenida Paulista e a Avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini.

Na Avenida Paulista, os palacetes e casarões da elite cafeeira cederam lugar aos prédios residenciais, num movimento que se estendeu entre as décadas de 1940 e 1970. A exceção é o Conjunto Nacional, de 1956, construção de uso misto que abriga escritórios, residências, lojas e cinemas. Comenta Nestor Goulart Reis Filho:
"[…] com o crescimento da cidade e a ocupação de novos bairros ao lado dos jardins, a Paulista se tornou um grande eixo de tráfego. A prefeitura não permitia a instalação de estabelecimentos comerciais, mas aceitava a construção de prédios de apartamento. Essa forma de uso começou a se generalizar, e a Paulista se transformou em um eixo residencial adensado. Muitas das antigas mansões vão sendo substituídas por prédios de apartamento, e muitas das residências, já abandonadas ou semi-abandonadas, entraram em decadência. O velho Belvedere do Trianon, também abandonado, entrou em degradação e foi demolido. Era o fim de um ciclo". 30
A partir dos anos 1960, aos apartamentos residenciais vieram juntar-se imóveis ocupados por empresas nacionais e multinacionais, grandes corporações e bancos. A Paulista firmava-se como novo centro financeiro da cidade.



"O crescimento comparativo das sedes do setor financeiro entre o Centro Principal e o Centro Paulista podem dar uma idéia do crescimento do último: das 89 sedes de bancos no estado de São Paulo, em 1968, 70 estavam no Centro Principal, na área do Triângulo; no final dos anos 70, 81,1% desse total ainda estavam no Centro Principal, mas o Centro Paulista já contava com 16,6%; já em 1987, havia 50 sedes no Centro Principal e 80 na Paulista, enquanto que 11 na Faria Lima. Ainda quanto aos bancos, se até 1970 havia ali duas agências e duas matrizes, em 1983 observavam-se 38 agências e 23 matrizes", elucida Heitor Frúgoli. 31




A transformação em centro financeiro provocou uma enorme especulação imobiliária com aumento significativo do preço do metro quadrado na região.
"Termômetro da vida econômica, social, política e da mentalidade paulista, a avenida Paulista ao longo do tempo, sujeita a todas as modificações, conservou sempre o seu caráter fundador: sede da classe dominante, o lugar mais importante da Capital da riqueza do Estado e do país, sempre seguindo os cânones e os padrões vigentes que erigem esta mesma riqueza." 32
Em 1990, a Avenida Paulista foi considerada o "símbolo da cidade", consolidando o seu prestígio e poder.

Nos anos 1990, outro centro financeiro foi planejado com o apoio de um grupo de empresários na Avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini, situada na Marginal Pinheiros. O projeto, a cargo da construtora Bratke-Collet, tinha como objetivo favorecer a concentração de sedes empresariais multinacionais do setor terciário (comércio e serviços).
"Em seus menos de três quilômetros de extensão, a Berrini contava, em 1982, de responsabilidade da Bratke-Collet, com 10 prédios de escritórios, além de 13 em construção; em 1985, a mesma firma há havia erigido 20 edifícios, com outros sete em construção; em 1993, havia um total de 40 edifícios prontos e 17 em construção; em 1997, 52 edifícios haviam sido construídos pela empresa, todos de autoria de Carlos Bratke". 33
Entretanto, esse empreendimento empresarial recebeu críticas de urbanistas e arquitetos. Um deles é Regina Meyer, para quem a Berrini é uma proposta de "urbanização sem cidade", ou seja, "a vida se dá dentro da edificação e não fora". 34 Trata-se de um exemplo em que o espaço privado invade a esfera pública. Tudo acontece nos interiores, não há vida nas ruas, não há bares, restaurantes ou praças. Não há diversidade social ou cultural. As pessoas permanecem confinadas nos escritórios, vigiadas por poderosos sistemas de segurança. Nesse sentido, a noção de público não se impôs sobre os interesses privados.





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