TERRITÓRIOS DEMARCADOS: FAVELAS E CONDOMÍNIOS
"O aumento vertiginoso das favelas,
dos condomínios fechados, shopping centers
e centros empresariais ao longo das décadas
de 80 e 90 revela essa fragmentação
socioterritorial da cidade, que compartimentaliza
os territórios, promovendo uma vida urbana
confinada em circunscrições controladas,
protegidas ou vulneráveis, de alta e baixa renda."
Raquel Rolnik, São Paulo.
Favelas
A partir da década de 1940, um enorme fluxo de migrantes nordestinos veio para São Paulo em busca de trabalho e de melhores condições de vida. Sem lugar para morar, ocuparam terrenos vazios e devolutos, encostas de morro e áreas protegidas - as de mananciais, por exemplo - sem qualquer infra-estrutura. Surgiram, assim, as favelas da cidade, no abandono completo das políticas públicas.
Uma figura-chave para a compreensão desse universo é o alagoano Manoel Francisco Espíndola (1915-1990), presidente da Sociedade Amigos da Favela e coordenador das favelas de São Paulo. Espíndola chegou a São Paulo no ano de 1957. Sem moradia, foi viver na favela da Vila Prudente (naquela época, só havia mais uma favela na cidade, a do Vergueiro, já extinta), começando sua longa batalha contra a discriminação dos favelados. Lutou também pelo direito a serviços públicos, como sistema de esgotos, água, luz, ambulatório e educação de qualidade. "A favela foi a maior das minhas escolas",
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afirmou. Sua visão sobre a questão da moradia era abrangente e aguda:
"O meu mundo é a favela, mas o que me preocupa não é somente a favela da Vila Prudente, mas sim a sua totalidade. Vejo esse fenômeno como efeito, cuja causa não está dentro dela. E isso representa muito bem o sistema. Faz parte do sistema do mundo capitalista. O que eu vejo: favelas, miséria no campo, miséria em todos os setores, eu atribuo a causa das favelas a essa miséria toda. Condeno o sistema, condeno os conservadores desse sistema, que não aceitam nem mudanças, nem renovação de estruturas".
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A favelização é um fenômeno crescente. Em 1973, 1% da população de São Paulo morava em favelas; em 1980 esse número salta para 4%, chegando a 8% (1,15 milhão) no início dos anos 1990.
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Em 2000, de acordo com um estudo feito pela Prefeitura e pelo Centro de Estudos da Metrópole, existiam 2.018 favelas, com 378.863 domicílios para 1,16 milhão de pessoas.
De 1991 a 2000 surgiram na metrópole 464 favelas: uma a cada oito dias.
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O aumento explica-se pela crise econômica que se abateu sobre os trabalhadores na década de 1990, gerando desemprego e reduzindo ainda mais o rendimento da população.
A maioria dos loteamentos populares é clandestina. "No fundo,
a urbanização tem acontecido quase que exclusivamente de forma
ilegal, seja pelo crescimento das favelas ou dos loteamentos
irregulares", comenta Suzana Pasternak, professora da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da USP.
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A Prefeitura de São Paulo está urbanizando e regularizando os lotes irregulares
da capital. No ano de 2002, já foram regularizados 6.378 lotes.
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Hoje existem vários projetos de construção de moradia digna
para a população de baixa renda. Entenda-se por moradia digna
"aquela que dispõe de instalações sanitárias adequadas, que
garante as condições de habitabilidade, e que seja atendida
por serviços públicos essenciais, entre eles: água, esgoto,
energia elétrica, iluminação pública, coleta de lixo, pavimentação
e transporte coletivo, com acesso aos equipamentos sociais
básicos".
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| Dados sobre moradia em São
Paulo |
Moradores em favelas (Fipe, 1993)
Moradores em cortiços (Fipe, 1996)
Moradores de rua (Fipe, 2000)
Moradores em loteamentos clandestinos (Sehab, 2001) |
Quase 2 milhões
600 mil
8.702 (adultos e crianças)
Cerca de 3 milhões
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Condomínios fechados
A partir da década de 1970, os ricos refugiaram-se
em condomínios fechados, também chamados de
edge cities, cidades limítrofes localizadas longe dos
bairros centrais. Em muitos aspectos mais semelhantes à
ficção que à realidade, esses espaços
conferem status às classes média e alta, que
sonham viver entre privilegiados, em unidades auto-suficientes
livres dos problemas que afligem os moradores da cidade –
sobretudo, livres das ameaças causadas pelas diferenças
sociais.
Para garantir essa autonomia os condomínios oferecem,
além de moradias luxuosas, sistema de segurança,
clubes, escolas, shopping centers e conjuntos de escritório.
“São propriedade privada para uso coletivo e
enfatizam o valor do que é privado e restrito ao mesmo
tempo que desvalorizam o que é público e aberto
na cidade. São fisicamente demarcados e isolados por
muros, grades, espaços vazios e detalhes arquitetônicos.
São voltados para o interior e não em direção
à rua, cuja vida pública rejeitam explicitamente.
São controlados por guardas armados e sistemas de segurança,
que impõem as regras de inclusão e exclusão.
São flexíveis: devido ao seu tamanho, às
novas tecnologias de comunicação, organização
do trabalho e aos sistemas de segurança, eles são
espaços autônomos, independentes do seu entorno,
que podem ser situados praticamente em qualquer lugar”,
explica Teresa Caldeira.22
Os condomínios fechados configuram-se, portanto, como
afirmação da desigualdade social e forma de
segregação espacial e social, a partir da “negação
e ruptura com o resto da cidade”.
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No entanto, depois
de algumas décadas percebe-se o fracasso da concepção
desses condomínios, hoje às voltas com o trânsito,
a violência, a poluição e a transgressão
às regras de que tentavam fugir. A realidade é
implacável e mostra que é impossível
viver à margem dos problemas urbanos – e humanos.