“São Paulo é hoje uma cidade de muros.
Os moradores da cidade não se arriscariam
a ter uma casa sem grades ou barras nas janelas.
Barreiras físicas cercam espaços públicos
e privados: casas, prédios, parques, praças,
complexos empresariais, áreas de comércio
e escolas.
À medida que as elites se retiram para seus enclaves
e abandonam os espaços públicos para os sem-teto
e os pobres, o número de espaços para encontros
públicos de pessoas de diferentes grupos
sociais diminui consideravelmente.” Teresa Pires do Rio Caldeira. Cidade de muros.
Crime, segregação e cidadania em São
Paulo.
O espaço público é o lugar de convívio
da coletividade e do diálogo entre os mais diversos
segmentos da população de uma cidade. É
o lugar de expressão das diferenças sociais.
Teresa Caldeira define:
“Apesar de as cidades ocidentais
incorporarem várias e até contraditórias
versões da modernidade, há um grande consenso
a respeito de quais são os elementos básicos
da experiência moderna de vida pública urbana:
a primazia e a abertura de ruas; a circulação
livre; os encontros impessoais e anônimos de pedestres;
o uso público e espontâneo de ruas e praças;
e a presença de pessoas de diferentes grupos sociais
passeando e observando os outros que passam, olhando vitrines,
fazendo compras, sentando nos cafés, participando
das manifestações políticas, apropriando
as ruas para seus festivais e comemorações,
ou usando os espaços especialmente designados para
o lazer das massas (parques, estádios, locais de
exposições)”. 35
Pedestres no Centro Velho, 1992.
Crédito: Marcos Rosa/Abril Imagem
Em contrapartida, quando a maioria da população
abandona o espaço público deixando de transitar
pelas ruas, por medo ou impossibilidade de exercer a cidadania,
retrata-se claramente a fragmentação da sociedade,
cujos espaços se encontram rigidamente segmentados
e controlados.
Nas últimas décadas, como conseqüência
da grande desigualdade social do país, a cidade de
São Paulo sofreu uma progressiva restrição
do uso de seu espaço público tanto por parte
das elites quanto das classes populares.
As classes alta e média criaram um novo padrão
de sociabilidade. Abandonaram as ruas para se refugiar em
espaços confinados (casas, condomínios fechados,
shopping centers, centros empresariais), protegidos por
sistemas de segurança que modificam a rotina dos
moradores da cidade. Grades, alarmes, guardas, guaritas,
câmaras de vídeo interferem na vida pública.
“Ao transformar a paisagem urbana, as estratégias
de segurança dos cidadãos também afetam
os padrões de circulação, trajetos
diários, hábitos e gestos relacionados ao
uso de ruas, ao transporte público, de parques e
de todos os espaços públicos”, analisa
Teresa Caldeira.36
A vida pública, portanto, ficou marcada pela tensão
e discriminação.37
Desde a década de 1970, os shopping centers, espaços
artificiais de consumo e de lazer voltados para as elites,
espalharam-se por várias regiões da cidade.
É interessante observar que tais empreendimentos
tiveram como modelo os centros de consumo norte-americanos,
mas criam nos consumidores a ilusão de que poderiam
estar em qualquer lugar do Primeiro Mundo: o espaço
não imprime nenhuma marca nem referência às
tradições culturais do país; trata-se
de um campo global de consumo.
No entanto, com o crescimento da criminalidade nas ruas
da cidade os shopping centers deixaram de atender apenas
às elites e voltaram-se também para os moradores
da periferia. A partir da década de 1990, começaram
a surgir em bairros “distantes” e se constituíram
como espaços de lazer e de sociabilidade, resguardados
– na medida do possível – da violência.
Shopping center, s.d.
Crédito: Antonio Milena/Abril Imagem
O complexo cenário urbano contemporâneo permite
ao observador algumas deduções:
a) A vida pública tende a declinar
na cidade.
b) As diferenças sociais consolidam-se pelo uso de
espaços privatizados que segregam e discriminam.
c) Espaços privatizados e não-democráticos
tentam substituir o que deveria ser público: o direito
ao lazer, à cidade e ao convívio.
d) Espaços públicos tendem a substituir o
que deveria ser espaço privado: moradia, relações
afetivas.
Esses fatores indicam um processo de desvalorização
do espaço público, o que, em última
instância, pode levar à falência da cidade.
“Mesmo que vários locais públicos ainda
comportem uma razoável interação interclasses,
o conjunto dessas ocupações do espaço
urbano resultaria numa propensão a um quadro metropolitano
fragmentado, segmentado e apartado que ameaçaria
a dimensão da vida pública e a própria
idéia de uma “cidade comum”, analisa
Heitor Frúgoli.38
Coloca-se, assim, mais um desafio à democracia brasileira:
construir uma cidade mais justa e participativa, que dissolva
os núcleos de segregação. É
uma tarefa grande e complexa – mas é o único
caminho para a revalorização da vida pública
e para que os moradores possam apropriar-se de seu espaço
e circular pelas ruas, calçadas, praças e
becos de sua cidade.